
Em março de 1794, o Marquês de Condorcet escondia-se em uma pensão em Paris. A Revolução que ele tanto defendera voltara-se contra ele. Era um homem procurado — um moderado em uma era de extremos, um racionalista entre fanáticos. A Convenção emitira um mandado para sua prisão. Os amigos que o abrigavam arriscavam a própria vida na guilhotina.
Naquela pensão, sabendo que provavelmente morreria, Condorcet escreveu o Esquisse d'un tableau historique des progrès de l'esprit humain — o Esboço de um Quadro Histórico dos Progressos do Espírito Humano. Trata-se de um dos documentos mais extraordinários da história das ideias: um manifesto do progresso humano escrito por um homem prestes a ser destruído pela própria revolução que deveria personificá-lo.
A Décima Época
O Esquisse divide a história humana em nove épocas, desde as sociedades primitivas até a Revolução Francesa. Então, Condorcet escreve uma décima época — o futuro. Nela, ele prevê:
- A abolição da desigualdade entre as nações
- O progresso da igualdade dentro das nações
- A perfectibilidade indefinida da espécie humana
Ele escrevia isso enquanto se escondia do Terror. Enquanto Robespierre enviava seus antigos colegas ao cadafalso. Enquanto a Revolução devorava seus próprios filhos.
Como isso é possível?
O Racionalismo como Dever Moral
Passei oito anos estudando o pensamento político de Condorcet na Zhejiang University (浙江大学 - Zhèjiāng Dàxué). O que mais me impressionou não foi seu otimismo — foi seu método. Condorcet não acreditava no progresso por ser ingênuo. Ele acreditava nele porque havia construído uma estrutura matemática para a tomada de decisão coletiva (o teorema do júri de Condorcet) que demonstrava, rigorosamente, que grupos de indivíduos razoavelmente competentes tendem a decisões corretas à medida que o grupo aumenta.
Sua fé no progresso não era sentimentalismo. Era teoria das probabilidades.
É por isso que Condorcet é relevante hoje. Em uma era de populismo, teorias da conspiração e decadência institucional, seu argumento não é que os seres humanos são naturalmente bons. Seu argumento é que sistemas projetados para agregar o julgamento racional irão, ao longo do tempo, tender à verdade.
A palavra-chave é projetados. Condorcet entendia que o progresso exige arquitetura institucional — educação, imprensa livre, salvaguardas constitucionais, método científico. Sem isso, o julgamento coletivo degenera em tirania das massas. O Terror provou seu ponto.
O Custo Pessoal
Condorcet deixou seu esconderijo no final de março de 1794, temendo colocar seus anfitriões em perigo. Vagou pelo campo por dois dias, faminto. Foi preso em uma estalagem em Clamart após pedir um omelete — o estalajadeiro achou suspeito que um cavalheiro não soubesse quantos ovos entram em um omelete. Foi encarcerado e encontrado morto em sua cela na manhã seguinte, muito provavelmente por suicídio (embora alguns historiadores argumentem que morreu de exaustão).
Ele tinha cinquenta anos.
Sua esposa, Sophie de Grouchy, sobreviveu ao Terror e publicou o Esquisse postumamente. Tornou-se um dos textos fundamentais da tradição iluminista.
O que Condorcet Ensina
Três lições, para investidores e para todos os outros:
Primeiro: Análise racional e convicção moral não são opostos. O otimismo de Condorcet estava fundamentado na matemática, não em pensamento positivo. Da mesma forma, a disciplina de investimento não é a ausência de convicção — é a convicção testada por evidências.
Segundo: Sistemas importam mais que indivíduos. O teorema do júri de Condorcet nos diz que a sabedoria das multidões requer certas condições: independência de julgamento, competência razoável, relato honesto. Quando essas condições falham — como ocorreu durante o Terror, e como ocorre durante as manias de mercado — o julgamento coletivo falha espetacularmente.
Terceiro: Você pode fazer a coisa certa e ainda assim perder. Condorcet estava certo sobre quase tudo — sobre democracia constitucional, sobre educação universal, sobre o sufrágio feminino, sobre a abolição da escravidão. Ele estava certo, e morreu por isso. Mas suas ideias sobreviveram a ele por séculos.
Este é o significado mais profundo de sustine et abstine. Suportar o custo de estar certo quando o mundo está errado. Abster-se da tentação de comprometer seu julgamento em troca de segurança.
Per aspera ad astra. Através das dificuldades, rumo às estrelas.