Howard Marks e a Arte de Pensar de Forma Diferente

O pensamento de primeiro nível diz: "É uma empresa boa; vamos comprar a ação". O pensamento de segundo nível diz: "É uma empresa boa, mas todos sabem que é uma empresa boa, e, portanto, não é uma ação boa".

— Howard Marks, The Most Important Thing (2011)

Howard Marks escreve memorandos aos investidores desde 1990. Eles figuram entre os documentos mais cuidadosamente fundamentados da literatura financeira pública — não por serem densamente quantitativos, mas por serem implacavelmente claros sobre as condições sob as quais uma afirmação é verdadeira.

O conceito que ancora todo o seu arcabouço é o que ele chama de segundo nível de pensamento.

A Distinção

O pensamento de primeiro nível é simples, direto e amplamente compartilhado. Ele responde ao sinal mais óbvio: esta empresa está crescendo rápido, a economia vai bem, a inflação está caindo, as notícias são boas. O pensador de primeiro nível conclui: compre.

O pensamento de segundo nível começa um passo depois e questiona: quem mais chegou a essa conclusão, e o que essa conclusão implica para o preço?

Esta não é uma mudança trivial. Se todos já concluíram que os fundamentos de uma empresa são sólidos, essa avaliação já está incorporada ao preço atual. Você não é remunerado por uma percepção que compartilha com o consenso. Para gerar retornos acima da média, você precisa estar certo quando o consenso está errado — o que significa pensar de forma diferente, e não apenas de forma mais cuidadosa.

Marks não afirma que a análise de primeiro nível esteja incorreta. Ele afirma que ela é insuficiente. Você precisa da análise fundamentalista e de uma visão sobre onde o consenso se situa e de um julgamento sobre se o consenso provavelmente está correto e de uma avaliação do que acontece com os preços quando você está certo.

A Distribuição de Probabilidade

O pensamento de segundo nível é, em sua essência, probabilístico. Marks argumenta que um investimento não é uma aposta sobre o que acontecerá, mas uma aposta sobre o que acontecerá em relação às expectativas.

Suponha que você acredite haver 70% de chance de os lucros de uma empresa superarem as previsões dos analistas. Se o mercado já estiver precificando uma probabilidade de 90% para esse resultado, sua visão de 70% é, na verdade, pessimista — você está menos otimista do que o preço sugere. Estar certo sobre a direção (os lucros serão fortes) e, ao mesmo tempo, perder dinheiro na operação (porque o mercado esperava lucros ainda mais fortes) é uma das experiências mais comuns e confusas para investidores de primeiro nível.

É por isso que Marks distingue entre estar certo e estar certo de uma forma que produza retornos. Um desempenho superior exige uma percepção variante — uma visão que difira do consenso — que se revele correta. Você precisa de duas coisas, não de uma.

A Humildade Necessária

Há uma profunda humildade intelectual embutida no pensamento de segundo nível. Para pensar no segundo nível, você deve perguntar: por que o consenso existe? A resposta frequentemente revela que o consenso está certo — que o preço atual é justo e que não há vantagem competitiva. Na maioria das vezes, argumenta Marks, a conclusão honesta é: não tenho uma percepção variante que seja melhor que a do mercado. Não devo operar isto.

Os mercados geram estímulo constante, uma tentação constante para agir. A resposta do pensador de segundo nível à maior parte disso é permanecer imóvel.

Munger disse: "O grande dinheiro não está na compra e na venda, mas na espera". Marks acrescentaria: e a espera só é tolerável se você tiver feito o trabalho de segundo nível e concluído, conscientemente e com fundamentos, que não possui uma vantagem no momento. A inação escolhida pelo rigor é inteiramente diferente da inação nascida da passividade.

Scire quod scias quod scias, et quod nescias nescire — id est scire. — Confúcio (孔子, Kǒngzǐ), conforme traduzido para o latim: saber que você sabe o que sabe, e que você não sabe o que não sabe — isto é o conhecimento. O pensamento de segundo nível é a aplicação desse aforismo aos investimentos. Os praticantes de sustine et abstine agem quando têm um motivo, e abstêm-se quando não o têm.

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